
Tragédia no Himalaia, enchente repentina provocada pelo colapso de gelo e rochas atingiu uma das principais áreas de acesso entre o Nepal e o Tibete e interrompeu rotas de turismo, peregrinação e montanhismo. Mais de 500 estrangeiros estão desaparecidos.
Uma das mais graves tragédias naturais dos últimos anos no Himalaia atingiu, na quarta-feira (26), a região de fronteira entre o Nepal e o Tibete, na China. O desastre começou com o colapso de uma massa de gelo e rochas nas proximidades do rio Lhende, desencadeando uma violenta enxurrada de água, lama e detritos que avançou pelos vales e atingiu comunidades, estradas, pontes, empreendimentos hidrelétricos e estruturas de fronteira.
O balanço ainda está em atualização. Segundo o Ministério das Relações Exteriores do Nepal, 538 corpos já foram recuperados nas áreas atingidas, enquanto centenas de pessoas continuam desaparecidas. Entre os estrangeiros registrados na região, 511 ainda não haviam sido localizados até a tarde desta sexta-feira (28). O grupo reúne viajantes de 33 países.
A tragédia também atingiu diretamente uma região de grande importância turística. O distrito nepalês de Rasuwa funciona como uma das portas de entrada para áreas de montanhismo, trekking e peregrinação no Himalaia. Do outro lado da fronteira, o impacto alcançou o porto de Gyirong, no Tibete, importante ligação terrestre entre a China e o Nepal.
LEIA MAIS: 4 hotéis no estado de São Paulo para aproveitar o Halloween
Uma onda de gelo, água, lama e pedras
O fenômeno começou na manhã de quarta-feira, quando uma grande massa de gelo e rochas se desprendeu em uma área montanhosa próxima ao rio Lhende. O material atingiu o curso dágua e provocou um bloqueio, que posteriormente cedeu, liberando uma enorme quantidade de água e sedimentos em direção ao vale.
A força da correnteza impressionou até mesmo moradores acostumados às condições extremas do Himalaia. O rio Trishuli, um dos principais cursos dágua da região, chegou a subir cerca de nove metros em apenas 30 minutos, segundo autoridades nepalesas.
O volume de água e detritos percorreu o Lhende Khola, alcançou o Bhote Koshi e depois o Trishuli, levando a inundação para localidades situadas rio abaixo. Entre as áreas mais afetadas estão Timure e Syapru Besi, no distrito de Rasuwa.
No Tibete, o fluxo de lama e rochas atingiu o porto de Gyirong, provocando danos à infraestrutura e deixando pessoas desaparecidas.
Região é rota de turistas e peregrinos
A localização ajuda a explicar o grande número de estrangeiros entre os desaparecidos.
A região de Rasuwa está próxima de rotas utilizadas por viajantes que seguem em direção ao Tibete e também por peregrinos que têm como destino o Monte Kailash, considerado sagrado por diferentes tradições religiosas asiáticas.
O primeiro levantamento do Nepal apontava 632 estrangeiros de 33 nacionalidades na área atingida. Até a atualização oficial desta sexta-feira, 121 haviam sido localizados e 511 continuavam desaparecidos. Entre os países com maior número de pessoas não localizadas estão Índia, China, Ucrânia, Malásia, Estados Unidos, Reino Unido e Austrália.
A própria autoridade diplomática nepalesa criou uma equipe de emergência para auxiliar na localização de estrangeiros e na comunicação com governos e familiares. O governo orientou que informações sobre desaparecidos sejam verificadas por meio dos canais oficiais, diante da quantidade de informações ainda não confirmadas circulando sobre a tragédia.
Imagens lembram Brumadinho, mas causas são diferentes
As imagens do desastre no Himalaia podem provocar, especialmente entre os mineiros, uma associação imediata com a tragédia de Brumadinho, em Minas Gerais, em 2019. Em ambos os casos, grandes volumes de lama e detritos avançaram rapidamente por áreas ocupadas, destruindo construções e deixando pouco tempo para reação.
A comparação, porém, termina aí. Em Brumadinho, a destruição foi provocada pelo rompimento de uma barragem de rejeitos de mineração. No Himalaia, as evidências apontam para um fenômeno natural associado ao colapso de gelo e rochas, que provocou uma inundação repentina com enorme quantidade de sedimentos.
Especialistas também descartaram uma das primeiras hipóteses apresentadas após o desastre. Inicialmente, um tremor de magnitude 4,4 chegou a ser apontado como possível gatilho. Posteriormente, o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) informou que o sinal sísmico havia sido provocado pelo próprio deslizamento. O movimento foi tão intenso que registrou um sinal equivalente a um evento sísmico de magnitude 5,2.
Resgate enfrenta rios bloqueados e risco de novos desastres
As operações de busca e salvamento continuam em condições extremamente difíceis. Estradas e pontes foram destruídas, comunidades ficaram isoladas e o excesso de sedimentos alterou o curso dos rios.
Além das vítimas diretamente atingidas pela enchente, as equipes de emergência precisam lidar com o risco de novos deslizamentos e de outros episódios de inundação. Nesta sexta-feira, autoridades nepalesas informaram que um lago formado pelo bloqueio de um rio na região havia começado a transbordar, aumentando a preocupação com uma nova onda de água e detritos.
O governo do Nepal mantém equipes de segurança, defesa civil e saúde mobilizadas para as operações de resgate, evacuação e atendimento às vítimas.
Alerta para quem pretende viajar ao Himalaia
A dimensão da tragédia coloca em alerta os roteiros turísticos que passam pelo norte do Nepal e pelas conexões terrestres com o Tibete.
Para quem possui viagem programada para a região, a recomendação é não seguir viagem sem antes confirmar as condições locais com a agência responsável, operadores de trekking, autoridades nepalesas e companhias de transporte. Estradas, pontes e acessos podem permanecer interditados mesmo em áreas que não foram diretamente atingidas pela enxurrada.
Também é importante verificar as condições das rotas de trekking e montanhismo antes de iniciar qualquer deslocamento. Em uma região de relevo extremo, alterações no curso dos rios, instabilidade das encostas e novos bloqueios podem transformar rapidamente uma área aparentemente segura em um ponto de risco.
Para o turismo internacional, a tragédia reforça uma realidade conhecida por quem viaja pelo Himalaia: a beleza e a grandiosidade das montanhas vêm acompanhadas de riscos naturais que podem mudar em questão de minutos.
Enquanto as equipes continuam procurando sobreviventes, a prioridade na região deixou de ser o turismo e passou a ser a localização dos desaparecidos, o atendimento às vítimas e a retirada de pessoas de áreas que ainda apresentam risco.
Siga o @portaluaiturismo no Instagram e no TikTok @uai.turismo

