
Em tempos de redes sociais e mensagens instantâneas, pode-se dizer que a palavra perdeu valor. Hoje em dia, é possível se comunicar até mesmo sem escrever. Bastam algumas figuras, ou emojis, para sinalizar um significado. Os algoritmos nos perguntam, assim que entramos na página inicial, o que estamos pensando. O que queremos dizer. O que se passa pela nossa cabeça. O ambiente livre da internet sugere ser possível elevar ao extremo a liberdade de expressão.
Talvez essas características expliquem o ambiente caótico da internet, em que incoerências e recuos fazem parte do show. No mundo da política, poucos personagens exploraram a volatilidade da palavra quanto o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Já nos idos de 2016, os jornalistas que acompanhavam a Casa Branca ficavam apreensivos com as possíveis postagens de republicanos. Dez anos depois, o presidente reeleito elevou ainda mais o suspense. Em poucas palavras, pode suspender uma ofensiva militar. Dobrar tarifas comerciais. Vilipendiar ou, no caso de Lula, elogiar uma personalidade pública. Tudo muito instável, tudo muito volátil.
Esse estado precário da palavra parece acometer o pré-candidato à Presidência da República e senador Flávio Bolsonaro. Com a credibilidade abalada por causa do pedido de R$ 134 milhões a Daniel Vorcaro para financiar o filme em homenagem ao ex-presidente Jair Bolsonaro, o 01 admitiu que a relação com o homem-bomba da República foi além da conversa por telefone em busca de patrocínio cultural.
"Ponto-final"
Em um pronunciamento público no Congresso, Flávio Bolsonaro disse que se reuniu com Vorcaro após a primeira prisão do banqueiro. Comentou que a intenção era "colocar um ponto-final nessa história" de bancar um filme sobre Jair Bolsonaro. Trata-se de uma narrativa muito diferente da versão inicial da semana passada, quando o pré-candidato negou peremptoriamente ter pedido dinheiro a Vorcaro — "É mentira, de onde tirou isso?", rebateu o 01 ao repórter do Intercept. Mais ainda, a suposta decepção revelada por Flávio Bolsonaro com o comportamento de Vorcaro contradiz as próprias mensagens do senador quando tinha interesse nos recursos para financiamento. "Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia-conversa entre a gente", jurou o parlamentar. Afinal, quanto vale a palavra de Flávio Bolsonaro?
É importante contextualizar o que ocorria no escândalo Master quando Flávio Bolsonaro se encontrou com Vorcaro em São Paulo. Àquela altura, o Brasil inteiro já sabia da tentativa do banqueiro de arquitetar uma fraude de R$ 12 bilhões com títulos podres, além de uma negociação com o Banco de Brasília. Havia meses a Faria Lima, tão prestigiada pelo clã Bolsonaro, já comentava sobre as atividades suspeitas de Vorcaro.
Sabia-se também que Vorcaro mantinha uma vasta rede de contatos com altas figuras da República, tanto no Judiciário quanto no meio político. E a Operação Compliance Zero indicava que, a partir da apreensão do telefone celular do banqueiro, mais revelações poderiam vir. Para qualquer político, particularmente em ano eleitoral, essas circunstâncias seriam suficientes para manter uma distância segura do epicentro do Banco Master. No entanto, Flávio Bolsonaro decidiu correr o risco. Está pagando neste momento.
Na política, a palavra costuma ter valor. E a confiança é a matéria-prima para se selar alianças. Perdido em um labirinto de versões sobre sua relação com Daniel Vorcaro, o principal herdeiro político de Jair Bolsonaro até aqui vê corroer diante de si o apoio de aliados e do eleitor. Uma série de perguntas surge em decorrência das declarações deessa terça-feira: o que mais Flávio Bolsonaro tem a esconder? O que mais revelará sobre sua conduta? E o que mais pode vir à tona nas próximas semanas até a eleição? Eis um autêntico teste de estresse para qualquer candidatura.
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