
O senador Alessandro Vieira (MDB-SE), relator da CPI do Crime Organizado, segue confiante de que a Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar o caso do Banco Master, liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025, será instaurada em breve. Depois de conseguir as assinaturas necessárias e protocolar o pedido, ele aguarda parecer do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre mandado de segurança para a instalação do colegiado no Senado, que está nas mãos do ministro Kassio Nunes Marques.
"Se não rasgarem a Constituição, a CPI tem que ser instalada", afirmou, ao Correio. Ele coletou mais de 50 assinaturas para a instauração da CPI do Master e protocolou o pedido na Casa, mas o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), ainda não fez a leitura no Plenário.
Na avaliação de Vieira, Alcolumbre não tem demonstrado interesse nas investigações do Master, envolvido nas fraudes bilionárias investigadas pela Polícia Federal na Operação Compliance Zero. "O Alcolumbre não quer fazer instalação de CPI nenhuma. Só que CPI não é uma escolha política do presidente. O Supremo já decide nesse sentido há mais de 20 anos. Vão rasgar isso agora porque tem ministro que pode ser investigado? A gente vai descobrir no próximo capítulo", acrescentou.
Até o momento, o rombo estimado no Fundo Garantidor de Crédito (FGC) para o pagamento de indenizações de credores e investidores do conglomerado do Master está perto de R$ 52 bilhões. E, conforme as investigações da PF, as fraudes na venda de carteiras de crédito podres do banco de Daniel Vorcaro para o Banco de Brasília (BRB) somaram R$ 12,2 bilhões.
De acordo com o parlamentar, os documentos enviados pelo Tribunal de Contas da União (TCU), na semana passada, para a Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado sobre as investigações da compra do Master pelo BRB — vetada pelo Banco Central em setembro do ano passado —, mostram que há uma "mobilização muito intensa de diversos segmentos em favor do Master". "Estamos mapeando esses segmentos e tentando endereçar as investigações. Só que, considerando que temos limitações de tempo, não dá para expandir mais", afirmou ao Correio.
Vieira também defendeu que o cumprimento da Constituição é um dever dos ministros do Supremo, e que eles não devem legislar em benefício próprio em caso de alguma investigação envolvendo a eles ou parentes. O senador ainda criticou as decisões recentes dos ministros Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes, que cancelaram requerimentos aprovados na CPI. Afirmou que vai recorrer à Justiça e ressaltou que a lei não pode ser diferente para ninguém.
"Temos de entender que, sendo ministro do Supremo ou não, todos estamos submetidos à mesma lei, à mesma Constituição. Não pode haver uma Constituição para Alessandro e outra para Alexandre. Não é para ser assim numa República. E vamos fazer todo o processo necessário: recursos na Justiça, questionamentos aqui no próprio Congresso e, no último momento, se for necessário, nova apresentação de pedido de impeachment", afirmou, em referência a Moraes, cuja mulher trabalha no escritório que prestava serviços para Vorcaro por meio de um contrato milionário.
Ibaneis, Castro e Zettel convocados
A CPI do Crime Organizado decidiu ampliar o alcance das investigações sobre suspeitas de lavagem de dinheiro e irregularidades no sistema financeiro. Ontem, o colegiado aprovou a convocação dos ex-governadores Ibaneis Rocha (MDB-DF) e Cláudio Castro (PL-RJ), além da quebra dos sigilos bancário e fiscal do empresário Fabiano Campos Zettel, cunhado do ex-banqueiro Daniel Vorcaro — ambos estão presos. Também foi aprovado o requerimento para que o ex-presidente do Banco Central (BC) Roberto Campos Neto — que deveria depor ontem — seja ouvido em nova data.
Alessandro Vieira afirmou que a oitiva de Ibaneis busca esclarecer decisões do Governo do Distrito Federal envolvendo a gestão do Banco de Brasília (BRB) e negociações para a compra bilionária da carteira do Master. Segundo o senador, há indícios de que atos administrativos possam ter favorecido interesses do grupo de Vorcaro, cujas empresas foram liquidadas pelo BC.
O ex-governador do Distrito Federal contestou a convocação. Ao Correio, disse não ver conexão entre a investigação conduzida pela comissão e a inclusão do próprio nome no processo. “A CPI é do crime organizado. Não entendo o que tem a ver comigo”, questionou. Ainda de acordo com Ibaneis, os advogados vão analisará o caso sob a hipótese de eventual desvio de finalidade.
Em relação a Cláudio Castro, Vieira argumenta que o Rio de Janeiro se tornou um "laboratório" de práticas sofisticadas do crime organizado, o que torna o depoimento "indispensável" para compreender a dinâmica das operações sob suspeita. Além do mais, foi na gestão do ex-governador fluminense — cuja inelegibilidade até 2030 foi decretada, na semana passada, pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — que o Rioprevidência aplicou cerca de R$ 2,6 bilhões em papeis do Master, dinheiro de aposentados e pensionistas do funcionalismo do Estado do Rio de Janeiro.
O pedido das quebras de sigio de Zettel, apresentado pelo senador Humberto Costa (PT-PE), frisa que o empresário tem "conexões financeiras vêm sendo objeto de apuração no âmbito da Operação Carbono Oculto".
As convocações obrigam que a pessoa compareça diante dos parlamentares. Mas vários investigados têm recorrido ao Supremo Tribunal Federal para garantir o direito ao silêncio durante a oitiva ou até para evitar se apresentar à comissão. Exatamente isso levou Alessandro Vieira a criticar decisões recentes do STF e acusar os ministros Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes de atuarem contra as investigações. (Colaborou Raphaela Peixoto)
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Rosana Hessel
RepórterJornalista formada pela Católica (PUC-SP), com especializações em Economia por FGV-SP e IBMEC-SP e com MBA em Finanças pela FIA-USP. Como jornalista, trabalhou por 14 anos na Gazeta Mercantil, desde trainee, passando por várias editorias como repórter

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