
Renato Correia — presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC)
Viver mais é um objetivo legítimo para todo trabalhador. A proposta de reduzir a jornada de trabalho nasce de um desejo genuíno: devolver tempo às pessoas — tempo para a família, para o descanso, para a vida que existe fora do canteiro de obras, do escritório, da fábrica. Gerador intensivo de emprego formal, o setor da construção não é contra o direito ao descanso e cultiva como paradigma a valorização do trabalhador. Porém, no momento em que o Congresso Nacional discute mudanças na escala semanal e diante de um cenário de baixa produtividade, é essencial endereçar soluções para o impacto financeiro que será imposto às empresas do setor.
A redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais pode elevar em até 15% os custos com mão de obra na indústria da construção, um impacto de R$ 155,6 bilhões por ano, ou exigir a contratação de 288 mil novos trabalhadores, com custo adicional de R$ 13,5 bilhões anuais. Aprovada, a mudança encareceria em 10% o custo da hora trabalhada, elevando a remuneração média de R$ 15,01/hora para R$ 16,51/hora. O efeito seria mais severo nas micro e pequenas empresas, que respondem por 98,7% dos mais de 300 mil estabelecimentos do setor, e nas construções populares, onde a mão de obra representa quase 60% do custo — proporção que varia entre 41% e 54% nos demais padrões.
Tais dados reforçam a preocupação do setor, que tem defendido uma discussão mais criteriosa sobre a jornada de trabalho no Brasil, com uma abordagem técnica e considerando aspectos que farão diferença, como a baixa produtividade do trabalhador e a falta de mão de obra em alguns segmentos econômicos. Essas questões estão associadas diretamente à construção, que carrega o dilema de ser um gerador intensivo de postos de trabalho formais enquanto enfrenta dificuldade na contratação de novos entrantes em diversas regiões do país.
Estudamos o impacto da redução da jornada para dimensionar o tamanho do desafio e identificar caminhos possíveis. Estamos diante de dois cenários para compensar a perda de aproximadamente 600 mil horas de trabalho anuais. O primeiro é reduzir o ritmo de atividade sem repor as horas perdidas: esse caminho teria efeito sobre toda a nossa cadeia produtiva, levando ao atraso de obras em andamento, reduzindo a oferta de imóveis e agravando o deficit habitacional no Brasil.
A segunda alternativa é a contratação de novos trabalhadores. Para repor as horas perdidas, o setor precisaria admitir 288 mil novos celetistas, sendo 111 mil só na construção de edifícios, 98 mil em serviços especializados e 79 mil em obras de infraestrutura. O custo adicional seria de R$ 9,9 bilhões por ano, valor que sobe para R$ 13,5 bilhões quando incluídos os encargos previdenciários e trabalhistas básicos. Com isso, o gasto total do setor com mão de obra passaria dos atuais R$ 135,3 bilhões para R$ 148,9 bilhões anuais — uma alta de 10%. Essa saída esbarra em uma realidade já conhecida pelo setor: a falta de mão de obra qualificada e não qualificada em um mercado de trabalho que finalizou 2025 com o seu menor índice de desemprego (5,1%) desde 2012, segundo o IBGE.
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O setor da construção já opera com custos acima da inflação e seu nível de atividade ainda está 9,43% abaixo do pico de 2014, mesmo após a recuperação pós-pandemia. Os efeitos da redução da jornada de trabalho tendem a ser maiores na habitação popular, segmento em que a mão de obra representa quase 60% do custo das obras e o desempenho da construção ancora políticas sociais destinadas a entregar cidadania e qualidade de vida para a população de mais baixa renda e mesmo a classe média que ainda não conquistou o sonho da casa própria.
Mas não é só: esse cenário terá reflexos também sobre o provimento da infraestrutura e obras industriais, segmentos estratégicos para o desenvolvimento e competitividade da economia, em que o Brasil ainda registra não apenas amplo potencial de crescimento, como deficit — caso da infraestrutura. Combinados, esses fatores sustentam a necessidade de uma discussão mais ampla e realista, que crie as condições necessárias para alcançarmos esse benefício para o trabalhador brasileiro.
A redução de jornada e o aumento da produtividade não podem caminhar separados, pois são faces da mesma moeda. Esse debate exige uma resposta clara: quem pagará o preço de uma boa intenção? Da forma como está proposto, toda a sociedade brasileira pagará.
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