
Se alguém olhar apenas para o "técnico de rede" da Vivo que apareceu recentemente em Quem ama cuida, dificilmente vai associá-lo ao jovem de dreads e sorriso aberto de Totalmente demais, há 11 anos. Unindo os dois, está o ator Gabriel Reif, que, neste período, marcou presença em diversas produções tanto na TV Globo como na RecordTV, onde se tornou uma presença marcante das produções bíblicas.
Mais de uma década antes de surgir como o bonitão que foi à casa de Carmita (Deborah Evelyn) instalar a internet na residência da socialite, Reif viveu dois personagens jovens que o público ainda lembra com carinho: o Rominho de Malhação e o Jamaica de Totalmente demais, entre 2014 e 2015. E foi essa memória afetiva que a cena exibida recentemente no horário nobre acendeu.
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"Acho que existe uma coisa muito bonita quando um personagem consegue fazer parte de alguma fase da vida de alguém", afirma o ator de 33 anos. "Quando alguém me encontra e lembra de um personagem, muitas vezes não está lembrando apenas de mim, mas de quem aquela pessoa era quando assistia à novela", defende. "Existe uma verdade muito particular naquele momento da minha vida. Talvez o carinho venha daí, dessa identificação", acrescenta.
Para Gabriel, a arte tem esse poder de permanecer na memória afetiva das pessoas, "mesmo depois que a história termina" . Sobre a recente aparição na novela da Globo, ele fala de reencontro — e não de retorno. "A Globo faz parte de momentos importantes da minha trajetória, então voltar a esse ambiente naturalmente desperta muitas lembranças", argumenta ele, que também atuou em Amor de mãe (2019) e Um lugar ao sol (2021).
Mas ele faz questão de marcar a diferença: "Não volto sendo o mesmo artista de 10 anos atrás. Existe uma bagagem diferente, uma maturidade maior e uma relação muito mais consciente com o meu trabalho".
Sobre a repercussão nas redes com a sua aparição na trama de Walcyr Carrasco e Claudia Souto, o catarinense fala do carinho do público, principalmente de quem acompanha sua trajetória há bastante tempo. E reforça: "Não enxergo esse momento como um retorno à carreira, porque nunca deixei de trabalhar e construir minha história no audiovisual. É um reencontro com uma emissora que fez parte dela".
Mergulho no passado
Nos últimos anos, Reif mergulhou no gênero de época, iniciado em 2017 quando viveu o judeu Oswaldo em Apocalipse. De 2025 para cá, viveu Amiel em Reis, o centurião Magnus em O Senhor e a Serva e, agora, interpreta o apóstolo Tomé em Ben-Hur. Para interpretar esses tipos épicos, o ator comenta que evita a ideia de que todo personagem de época precise falar de maneira artificial ou excessivamente solene. "As pessoas daquela época também amavam, sentiam medo, tinham dúvidas, brincavam, sofriam. O figurino pode pertencer a dois mil anos atrás, mas a emoção precisa continuar sendo humana e reconhecível hoje", observa.
Viver um dos doze apóstolos em uma superprodução como Ben-Hur carrega um peso histórico e religioso enorme. A maior preocupação de Gabriel foi não transformar Tomé em uma característica única. "Quando falamos dele, quase sempre a primeira associação é a dúvida. O homem que precisou ver para acreditar. Mas eu acho muito limitador resumir um ser humano inteiro a um único momento da sua história", pondera.
Ele quis olhar para Tomé antes de tudo como homem — alguém com convicções, medos, coragem, contradições e uma maneira própria de compreender o que vivia. "Existe algo profundamente humano na dúvida. A gente vive em uma sociedade que muitas vezes trata o questionamento como fraqueza, quando ele também pode ser uma manifestação sincera da busca pela verdade", explica.
O equilíbrio que buscou foi entre respeitar a importância histórica e religiosa do personagem e, ao mesmo tempo, não colocá-lo em um pedestal tão distante que o público deixasse de reconhecer sua humanidade. "Eu não queria construir um apóstolo que parecesse santo em cada gesto, em cada olhar, em cada palavra. Queria construir um homem que, através das próprias experiências, estava vivendo uma transformação extraordinária", expõe.
Para Reif, a fé não precisa nascer da ausência de dúvidas: "Às vezes, ela se fortalece justamente quando temos coragem de confrontá-las." E define o Tomé que deseja entregar ao público: "Não é simplesmente aquele que duvidou. É aquele que teve coragem de buscar a verdade, mesmo quando acreditar parecia impossível".
Ator ou músico? Artista múltiplo
Antes da televisão, foi na passarela que Reif aprendeu algo que a tevê não ensina: a presença. "Sobre entender que o corpo também fala, mesmo quando você não diz absolutamente nada", afirma. Para ele, existe uma comunicação que se dá pelo olhar, pela postura, pela maneira como se ocupa um espaço. "Na televisão você tem o auxílio do texto, da construção dramatúrgica, da câmera que se aproxima. Na passarela, muitas vezes, você tem poucos segundos pra transmitir alguma coisa."
Essa consciência corporal foi fundamental para a atuação. "Entender que às vezes um silêncio, uma respiração ou um simples olhar podem comunicar muito mais do que uma fala inteira. A gente descobre que atuar não é apenas interpretar palavras, mas dar vida ao que existe entre elas", resume.
Gabriel recusa a ideia de que a arte precise caber dentro de uma profissão específica. Começou na música, passou pela moda, pelo audiovisual e continua escrevendo poesia. "São linguagens diferentes, mas todas nascem do mesmo lugar: da necessidade de expressão", afirma. "A música me ensinou ritmo, a atuação me ensinou escuta e a poesia me ensinou a observar aquilo que muitas vezes passa despercebido."
Hoje, a atuação ocupa um espaço importante em sua carreira — mas ele não sentiu que precisou abandonar o músico para se tornar ator. "Na verdade, acho que um alimenta o outro. Eu não quero ser limitado pela linguagem que utilizo, mas reconhecido pela verdade que consigo transmitir através dela", finaliza o pai de Apolo.
Esporte e poesia atravessando a atuação
O esporte sempre esteve presente na vida de Reif — do futebol ao cenário competitivo dos games, até chegar ao jiu-jitsu. E foi no tatame que ele encontrou algo que considera essencial para a atuação: a capacidade de estar verdadeiramente presente.
"No tatame, se você está pensando no que aconteceu cinco minutos atrás ou no que vai acontecer depois, você já perdeu a leitura do momento", explica. "Na atuação é parecido. Você precisa escutar o outro, perceber as mudanças, reagir aos estímulos e não simplesmente reproduzir algo que ensaiou", reitera.
Para ele, o jiu-jitsu também trabalha o ego. "Você aprende que força não resolve tudo, que técnica exige paciência e que estar vulnerável não significa necessariamente estar derrotado. E isso é extremamente rico pra construção de personagens", avalia. E arremata: "Eu gosto de pensar que o corpo é um arquivo das nossas experiências. Tudo aquilo que eu vivo, de alguma maneira, acaba se transformando em ferramenta artística".
Já a poesia, diz Reif, entra no seu processo de criação de personagem, talvez mais do que as pessoas imaginem. Ele explica que escreve a partir do que vive, observa e sente — e que a poesia é uma maneira de organizar sentimentos que nem sempre consegue explicar de forma objetiva. "Construir um personagem exige justamente essa disponibilidade para compreender sentimentos que, muitas vezes, não são nossos", defende.
A poesia o ajuda a enxergar as contradições humanas: "O amor que também provoca medo, a força que esconde fragilidade, o silêncio que pode carregar uma imensidão de coisas". Quando escreve, Reif exercita a capacidade de olhar além do óbvio. Quando interpreta, tenta fazer a mesma coisa. "Acredito que todo personagem tem uma poesia própria, mesmo aqueles que nunca escreveriam um verso. Talvez atuar seja justamente isso: encontrar palavras, gestos e silêncios para sentimentos que ainda não conseguiram ganhar forma", sublinha.
E o que o menino de Santa Catarina ainda carrega e o que precisou deixar para trás? Gabriel responde sem hesitar: carrega a curiosidade e a vontade de descobrir o mundo. "Quando você vem de uma realidade distante dos grandes centros de produção artística, muita coisa parece improvável. Mas eu sempre tive essa inquietação de experimentar, de buscar caminhos diferentes, de não aceitar que minha origem determinasse até onde eu poderia chegar", reflete.
O que precisou deixar para trás foram algumas idealizações. "Com o tempo você entende que uma carreira artística não é construída apenas de talento ou de grandes oportunidades. Existe muita disciplina, persistência, rejeição, recomeço e períodos de silêncio", aponta.
Para o artista, talvez a maior transformação tenha sido compreender que o reconhecimento não pode ser a única medida do valor de alguém. "Dez anos no audiovisual me ensinaram que permanecer não significa estar sempre em evidência. Às vezes, permanecer é continuar acreditando naquilo que você faz, mesmo quando ninguém está olhando", cinclui.
Paternidade e tempo
Pai de Apolo, Gabriel diz que a paternidade transformou completamente sua relação com o tempo. "Antes de ser pai, muitas decisões estavam relacionadas principalmente aos meus sonhos, às minhas vontades e aos caminhos que eu queria percorrer. Hoje existe uma outra vida que também faz parte dessas escolhas", conta. Ele fala do que o filho lhe ensina: presença, responsabilidade e amor: "Enquanto a gente acredita que está ensinando uma criança a viver, muitas vezes é ela quem está nos ensinando a enxergar a vida novamente".
Em uma carreira instável, com viagens, gravações e ausências físicas, o artista diz tentar compreender que ser um bom pai não é apenas oferecer condições materiais. "É construir memórias, estar disponível emocionalmente e ser alguém em quem meu filho possa confiar", ensina.
Gabriel quer que Apolo cresça entendendo que vale a pena lutar pelos próprios sonhos — mas que nenhuma conquista profissional substitui as relações humanas. "No fim, mais importante do que os personagens que vou deixar registrados na televisão é o ser humano que meu filho vai lembrar que eu fui", valida.
Diversão e Arte
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