
Agosto é marcado por duas datas importantes para a população lésbica: o Dia Nacional do Orgulho Lésbico, celebrado em 19 de agosto, e o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica, em 29 de agosto. Mais do que marcar a presença dessas mulheres na sociedade, as datas ajudam a colocar em discussão direitos e necessidades que ainda passam despercebidos - entre eles, o acesso à saúde sexual, ginecológica e reprodutiva.
No consultório, uma pergunta aparentemente simples pode fazer diferença: em vez de presumir que toda mulher se relaciona com homens, perguntar sobre sua vida sexual, suas parcerias e suas práticas. A mudança pode parecer pequena, mas é capaz de determinar se uma paciente se sente segura para falar sobre a própria saúde.
Para Marcelle Thimoti, ginecologista e obstetra e sócia do Grupo Elas Brasília, a suposição de que toda paciente é heterossexual ainda interfere diretamente na relação entre médico e paciente. Em uma consulta ginecológica, na qual temas como sexualidade são frequentes, esse pressuposto pode fazer com que parte das mulheres esconda informações importantes.
“Partir do pressuposto que toda mulher é heterossexual, que deve usar um método contraceptivo porque mantém relações com homens, reduz que toda relação sexual ocorre apenas entre um homem e uma mulher e que depende de penetração vaginal”, explica.
Segundo a médica, quando a paciente percebe que precisará se justificar ou se defender para ser compreendida, pode deixar de retornar ao serviço de saúde. O afastamento representa uma perda de oportunidades de prevenção, acompanhamento e diagnóstico precoce.
Quando a consulta deixa de ser um espaço seguro
A heteronormatividade, quando a heterossexualidade é tratada como padrão ou norma, pode aparecer em diferentes momentos do atendimento. Não está necessariamente em uma fala abertamente preconceituosa. Pode surgir em uma pergunta, em uma orientação ou na própria maneira como o profissional conduz a consulta.
Marcelle defende que a investigação da saúde sexual seja feita sem pressupostos. Em vez de partir da ideia de que a paciente mantém relações com homens, o profissional pode perguntar se ela tem vida sexual, se possui uma ou mais parcerias e quais são suas práticas, sempre que essas informações forem relevantes para o cuidado.
A abordagem permite avaliar, de forma individualizada, riscos de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), necessidade de contracepção, planejamento reprodutivo e outros aspectos da saúde. “O risco está relacionado à exposição ao HPV e não ao fato de a paciente se relacionar com homens ou mulheres”, afirma.
O problema não se limita ao constrangimento. Quando uma mulher deixa de contar sobre suas práticas sexuais por medo de julgamento, o profissional pode deixar de investigar determinados riscos, solicitar exames inadequados ou até mesmo não considerar algumas ISTs.
Existe, por exemplo, a ideia equivocada de que relações sexuais entre mulheres não transmitem infecções. A transmissão pode ocorrer de acordo com as práticas sexuais, pelo contato entre mucosas, pele e secreções ou pelo compartilhamento de acessórios. Entre as infecções que podem ser transmitidas estão HPV, herpes, sífilis e tricomoníase.
A mesma lógica vale para o rastreamento do câncer do colo do útero. O fato de uma mulher ser lésbica não elimina a necessidade de realizar o acompanhamento indicado para quem possui colo uterino e se enquadra nos critérios de rastreamento.
O atendimento individualizado também passa por procedimentos realizados durante a consulta. Um exemplo é o exame especular, feito com o uso do espéculo para afastar as paredes da vagina e permitir a visualização do colo do útero.
Marcelle ressalta, porém, que a escolha do tamanho do espéculo não deve ser determinada pela orientação sexual. O instrumento deve ser escolhido de acordo com as características anatômicas de cada paciente.
Antes de realizar o exame, a ginecologista costuma conversar sobre as práticas sexuais da mulher, incluindo a existência ou não de penetração vaginal, seja por meio de acessórios ou de atividade digital. Também pergunta sobre relações anteriores ou atuais com homens e sobre experiências prévias com exames ginecológicos.
A experiência anterior é outro ponto considerado. Se o exame já foi incômodo ou traumático, a paciente pode relatar essa vivência antes que um novo procedimento seja realizado. “Caso exista a necessidade de realizar o exame especular, pergunto se ela se sente confortável para tal, se quer realizar naquele momento ou se prefere que seja feito em uma consulta posterior”, explica.
Durante o procedimento, a paciente é orientada a comunicar qualquer desconforto e pode pedir a interrupção a qualquer momento. A mesma lógica é aplicada a outros exames, como a ultrassonografia transvaginal: o profissional deve explicar quando há necessidade do procedimento e como ele será realizado, permitindo que a paciente participe da decisão.
Prevenção não pode depender da orientação sexual
Dados do I LesboCenso Nacional: Mapeamento de Vivências Lésbicas no Brasil, publicado em 2022, mostram a dimensão do problema. Entre as cerca de 22 mil mulheres lésbicas ouvidas em todo o país, 25% relataram ter sofrido discriminação durante atendimento ginecológico.
O resultado ajuda a explicar por que o medo de ser julgada pode se transformar em uma barreira concreta para o cuidado. Uma paciente que teve uma experiência negativa pode evitar o consultório, adiar exames ou procurar atendimento apenas quando apresenta algum sintoma.
No caso das ISTs, o silêncio pode comprometer a avaliação de risco. No câncer do colo do útero, também pode significar perda de oportunidades de prevenção e diagnóstico.
O Brasil, atualmente, também passa por uma mudança na estratégia de rastreamento do câncer do colo do útero, com a adoção progressiva do teste de DNA-HPV como método primário. Segundo Marcelle, o que deve orientar a necessidade do rastreamento é a exposição ao HPV e os critérios clínicos da paciente, e não sua orientação sexual.
Quando lesbofobia, racismo e desigualdade se encontram
O acesso à saúde também não é igual para todas as mulheres lésbicas. Marcadores sociais como raça, cor e condição socioeconômica podem criar novas barreiras ou aprofundar as já existentes.
Dados da pesquisa "Rastreamento para câncer do colo de útero no SUS segundo raça/cor da pele: desigualdades regionais no Brasil" mostram que, entre 2021 e 2023, a cobertura nacional do rastreamento do câncer do colo do útero pelo SUS entre mulheres de 25 a 64 anos foi de 39,03%. O percentual chegou a 43,71% entre mulheres brancas, enquanto foi de 36,20% entre mulheres não brancas e 37,58% entre indígenas.
Para Marcelle, não basta observar se determinado exame está disponível. É preciso entender quem consegue efetivamente chegar até ele. “Não basta dizer que determinado exame está disponível. Precisamos perguntar quem consegue marcar, quem consegue faltar ao trabalho para ir à consulta, quem consegue voltar para buscar o resultado e quem consegue chegar ao especialista quando alguma alteração aparece”, afirma.
Como mulher negra e médica, ela também chama atenção para a forma como o racismo pode aparecer no atendimento de saúde. Nem sempre ele se manifesta como uma agressão explícita. Pode estar presente quando uma dor é menos valorizada, uma queixa recebe menos atenção, o acesso ao especialista é mais difícil ou o diagnóstico demora.
Quando a lesbofobia entra nessa equação, a paciente pode enfrentar ainda mais dificuldade para falar sobre a própria vida e permanecer no acompanhamento. “Então não estamos falando simplesmente de somar preconceitos. Estamos falando de uma mulher que pode ter mais dificuldade para acessar o serviço, mais receio de falar dentro do consultório e menos chance de permanecer em acompanhamento”, explica.
Quem não chega ao exame também precisa ser encontrado
Para reduzir as desigualdades, a médica defende que os serviços de saúde não dependam apenas da procura espontânea da paciente. Se determinada população historicamente apresenta menor cobertura de rastreamento, é necessário descobrir o motivo: dificuldade para marcar consulta, distância, horário incompatível com o trabalho, experiências ruins anteriores, falta de informação, medo do exame, racismo ou lesbofobia.
A partir dessas respostas, as estratégias podem ser diferentes. Entre as medidas apontadas estão a ampliação do acesso à atenção primária, a facilitação da marcação e realização de exames, o acompanhamento de pacientes que apresentam resultados alterados e a integração entre equipes de Saúde da Família, saúde indígena e lideranças locais.
Outro ponto é melhorar os próprios dados. Para a especialista, registrar adequadamente informações sobre raça, cor e orientação sexual ajuda a identificar quem está sendo deixado para trás pelas políticas de saúde. “Não adianta aumentar apenas o número de exames se a experiência dentro do serviço continua sendo hostil. A mulher precisa entrar, ser bem atendida, conseguir fazer o exame e, principalmente, conseguir permanecer dentro da linha de cuidado”, diz.
O ambulatório especializado é importante, mas não deveria ser a única opção
Em Brasília, o Ambulatório LGBTQIA+ do Hospital Universitário de Brasília (HUB-UnB/HU Brasil) recebe mulheres lésbicas em sofrimento relacionado à orientação sexual ou às situações de preconceito e estigma que enfrentam. Após a avaliação inicial, as pacientes podem ser encaminhadas para os serviços de acordo com suas necessidades.
O psiquiatra Guilherme Veiga, coordenador do ambulatório, explica que o serviço acolhe mulheres que enfrentam sofrimento relacionado à orientação sexual ou às dificuldades provocadas pelo preconceito.
A ginecologista Bruna Heinen, do HUB, destaca que o atendimento deve considerar a integralidade, um dos princípios do Sistema Único de Saúde (SUS). Para ela, quando o serviço não reconhece ou acolhe adequadamente a orientação sexual de uma pessoa, parte de uma compreensão incompleta sobre quem está sendo atendido.
Os ambulatórios especializados, portanto, têm uma função importante: podem oferecer um espaço seguro, concentrar conhecimento e experiência e contribuir para a formação de profissionais.
Mas não deveriam ser o único lugar onde uma mulher lésbica consegue ser tratada com respeito. “Uma mulher lésbica não deveria precisar encontrar um ambulatório LGBTQIA+ para conseguir ser tratada com respeito. Ela deveria poder entrar na unidade básica de saúde do seu bairro e receber um atendimento tecnicamente adequado e livre de preconceito”, afirma Marcelle.
Para ela, os serviços especializados devem funcionar como centros de referência e formação, ajudando a transformar a rede como um todo — e não como “ilhas de atendimento humanizado”.
Acolhimento começa antes da consulta
A capacitação também precisa envolver toda a equipe de saúde. Não basta que o médico saiba conduzir uma consulta respeitosa se a paciente já foi constrangida na recepção. Uma parceira chamada de “amiga”, uma pergunta inadequada ou a necessidade de explicar repetidamente a própria relação podem fazer com que a mulher chegue ao consultório já desconfiada do atendimento.
Por isso, a formação precisa alcançar médicos, enfermeiros, recepcionistas e outros profissionais. Entre os temas estão diversidade sexual, comunicação, prevenção de ISTs, práticas sexuais, planejamento reprodutivo e situações de violência. “É ensinar o profissional a fazer perguntas melhores”, resume Marcelle.
Também é necessário compreender que o planejamento reprodutivo faz parte do cuidado de casais de mulheres. Para aquelas que desejam ter filhos, existem possibilidades como inseminação intrauterina e fertilização in vitro, além de técnicas que permitem a participação biológica das duas mulheres no projeto parental.
Não é uma ginecologia diferente. É uma ginecologia que enxerga as diferenças. Serviços específicos para mulheres lésbicas continuam sendo importantes, principalmente por oferecerem segurança a uma população historicamente invisibilizada e por contribuírem para a produção de conhecimento.
Mas o objetivo, segundo Marcelle, não deveria ser criar uma rede paralela. O desafio é fazer com que toda a rede de saúde esteja preparada para atender mulheres lésbicas. Isso significa compreender que prevenção de ISTs, vacinação contra HPV e hepatites, rastreamentos, planejamento reprodutivo e outros cuidados devem ser discutidos a partir da história e das práticas de cada paciente.
A orientação sexual não deve ser usada para determinar automaticamente quais cuidados uma mulher precisa, mas também não pode ser ignorada quando ela for relevante para compreender sua realidade. “Mulheres lésbicas não precisam de uma ‘ginecologia à parte’. Precisam de uma ginecologia que reconheça que mulheres diferentes vivem sexualidade, corpo, maternidade e saúde de maneiras diferentes”, afirma Marcelle.
Em um mês dedicado à visibilidade lésbica, o desafio colocado para a saúde é, em parte, simples: criar espaços onde essas mulheres não precisem escolher entre esconder quem são e receber atendimento. “Eu não preciso saber que uma mulher é lésbica para tratá-la de forma diferente. Eu preciso saber quem é aquela mulher para tratá-la de forma individualizada", conclui.

Ciência e Saúde
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