
Marrocos, Alemanha, Japão, Finlândia, Vietnã... a lista é longa! No total, Marcleide Correia, 79 anos, conheceu 50 países, além de 18 estados do Brasil. E engana-se quem pensa que as viagens começaram cedo: a maioria dos destinos foi visitada depois dos 60. "Só comecei a viajar depois que me aposentei. A rotina como médica era muito intensa e, com três filhos para criar, o tempo era ainda mais curto", comenta a "doutora" aposentada. Atualmente, as excursões ocorrem duas vezes ao ano e entre grupos com perfis semelhantes ao seu, compostos por pessoas idosas. Os roteiros turísticos voltados a esse público, aliás, têm feito sucesso entre aqueles que desejam aproveitar a melhor idade. Para esses viajantes, o céu é o limite.
"Viajar, para mim, não é apenas uma atividade que traz aprendizados, mas também um entretenimento, até porque não sou ligada a outros eventos sociais, como festas ou passeios a shoppings. Viagens são a minha paz e felicidade", explica Marcleide, que, após se aposentar da medicina, passou a trabalhar com a produção de queijos artesanais na fazenda dos filhos. As excursões para a terceira idade, organizadas pela empresa Queensberry, seguem o conceito chamado slow travel (viagem lenta, em português), um estilo que prioriza o descanso, a imersão cultural e a vivência autêntica do destino.
Para Maricleide, os países mais encantadores são os do Oriente, como a Turquia e a China. "O que mais gosto é o perfil dos habitantes desses locais. Eles são resilientes, atenciosos e muito humanos, sempre nos recebem bem. É impressionante a forma como esses povos preservam e respeitam sua história, sabendo equilibrar modernidade e antiguidade", detalha ela, que tem como alguns dos próximos destinos desejados Armênia, Paquistão, Estônia e Rússia. "Quando surgir um pacote para esses lugares, com certeza vou aproveitar", comenta.
Quem entende bem sobre viagens para o público 60 é Danilo Cáceres. Aos 36 anos, ele é o nome por trás da Turismo Sênior Brasil, empresa brasiliense dedicada a esse mercado. O empreendimento nasceu no início dos anos 1990, idealizado pelos pais chilenos de Danilo, que começaram fretando ônibus para compras no Paraguai e, mais tarde, organizando viagens escolares e roteiros para Porto Seguro (BA). A virada de chave para o segmento sênior ocorreu no fim daquela década, quando uma parceria informal com a presidente de um clube da melhor idade, sediado no Conic, resultou na primeira excursão internacional do grupo, uma viagem para o Canadá.
Danilo cresceu acompanhando os bastidores do negócio e, ao assumir a liderança da agência, decidiu reposicionar a marca, em 2017, para conversar diretamente com esse público em potencial. "O foco mudou para a formação de grupos com calendário antecipado e logística totalmente pensada para o conforto deles, incluindo hotéis acessíveis e suporte, mediante profissionais, com o idioma e com as novas tecnologias", explica o empreendedor, que tem formação em publicidade. Para as viagens feitas em grupo, os destinos internacionais são os mais procurados, como Chile, Portugal e Estados Unidos.
Riqueza da experiência
Segundo Danilo, cerca de 90% dos clientes são mulheres viúvas, divorciadas ou casadas que optam por viajar sozinhas, sendo rara a presença de homens desacompanhados ou de casais. Atualmente, a agência brasiliense realiza de seis a oito viagens em grupo por ano, com uma média de 20 a 25 passageiros por embarque. "Mais do que a segurança de viajar acompanhado, o grande propósito é a riqueza da experiência e o sentimento de pertencimento. O grupo se renova, cria laços de amizade e redes de confiança", destaca.
Quem embarcará nessa experiência em breve é Letícia Pires, 68, que, ao lado do marido, Laurisnor Rochester, 69, viaja nesta semana para a Suíça, por meio do Turismo Sênior Brasil. Moradora do Jardim Botânico, ela encontrou nas viagens um recomeço e o cumprimento de um pacto de amor. "Depois de me aposentar, resolvi pesquisar sobre viagens para a terceira idade, pois a minha intenção era levar a minha mãe. Mas veio a pandemia e tive que esperar, e, depois desse período, ela faleceu. Atendendo ao que tinha prometido a ela, resolvi viajar", relembra.
Foi em 2023, durante um jantar de apresentação da agência brasiliense, que Letícia e o marido decidiram dar o primeiro passo. Acolhidos pelo grupo, eles iniciaram uma maratona de embarques que, apenas entre 2024 e 2025, incluiu desde o circuito cultural de Inhotim (MG) e das cidades históricas mineiras até voos de balão na Capadócia (Turquia) e o inverno na Escandinávia (Noruega, Dinamarca e Suécia). "Eu só vejo vantagens em viajar com o grupo. Nós ficamos mais tranquilos e sempre bem informados de todas as atividades. Viajar é muito bom: distrai, traz conhecimento e fortalece amizades", resume.
Passaporte para a saúde
Quem também encontrou no turismo o combustível para manter a rotina em movimento foi Maura Maria da Conceição Silva, 78. Moradora do Gama e viúva, ela frequenta as atividades do Serviço Social do Comércio (Sesc-DF) desde os anos 1990, mas foi a partir de 2011 que passou a desbravar o país por meio das excursões da instituição. De lá para cá, conheceu quase todas as regiões do Brasil e adotou uma fidelidade absoluta aos roteiros institucionais. Somente na virada para 2026, Maura acumulou passeios em Gramado (RS), Foz do Iguaçu (PR), Sergipe e o Delta do Parnaíba, no Piauí, além de bater ponto constantemente em Caldas Novas (GO), destino para o qual tem dois embarques programados neste mês.
"Depois que descobri o Sesc, não faço outras viagens sem ser com eles. Saímos (o grupo) daqui acompanhadas por duas técnicas, mais o guia, que nos orienta com tudo", relata. Essa sensação de amparo e segurança descrita por Maura é desenhada sob medida para o público 60+, segundo a gerente adjunta de Assistência Social do Sesc-DF, Thayane Duarte. "A oportunidade de arrumar as malas e rodar pelo mundo vai além do simples entretenimento. É uma dimensão de dignidade e fortalecimento da autonomia na velhice", explica a profissional.
A vivência em grupo e o suporte contínuo na rotina dos passeios operam transformações profundas na saúde coletiva, uma vez que os idosos deixam de ser percebidos sob a lógica da limitação ou da doença e passam a ocupar espaços de protagonismo social. Como define a própria Maura, o benefício de estar na ativa é uma experiência sem distinção de roteiros: "Seja um passeio de um dia, de um final de semana, para perto ou para longe, para mim é tudo maravilhoso. Saímos de cada lugar com uma linda história para contar".

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