
O coronel Rômulo Flávio Mendonça Palhares assume o comando-geral da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF). A troca do comando vinha sendo planejada há cerca de um ano, pautada pelo diálogo com o Governo do Distrito Federal e pela continuidade de projetos vitais. Em entrevista exclusiva ao Correio, Coronel Palhares detalha as prioridades de sua gestão, sustentada pelo tripé de valorização do policial, fortalecimento institucional e proximidade com a sociedade.
Com 31 anos dedicados à corporação, sua trajetória é marcada por uma formação técnica abrangente, que une a experiência operacional de tropas especializadas ao rigor acadêmico e estratégico.
Palhares anunciou que a corporação está comprando veículos blindados para atuar no combate ao crime organizado; instalação de sistemas de leitura de placas de veículos nas viaturas; retomada da licitação das câmeras corporais (processo liberado pelo TCDF); ao mesmo tempo em que reforça o compromisso com a saúde mental da tropa.
Entre os desafios de um ano marcado por Copa Mundo, eleições gerais e posse, o coronel Palhares garante que a eficiência da PMDF passará, necessariamente, pelo uso da inteligência, pela defesa intransigente dos direitos humanos e que o 8 de janeiro não se repetirá.
No comando-geral da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF), o coronel Rômulo Flávio Mendonça Palhares tornou-se Chefe de Estado-Maior da PMDF, conhecido como Coronel Palhares.
Entrevista | Cel Rômulo Flávio Mendonça Palhares, comandante da PMDF
O senhor pode citar alguns dos projetos que serão executados na sua gestão?
Um projeto que podemos mencionar, voltado à melhoria da atividade policial e muito comentado pelos meios de comunicação, é o das câmeras corporais. Foi iniciado na PMDF em 2022 e, por uma série de fatores, o processo foi suspenso, passou pelo Tribunal de Contas, retornou, a tecnologia evoluiu, e houve a necessidade de ajustes. Também foi publicado o normativo do Governo Federal sobre o uso de câmeras corporais, e tivemos que adaptar o nosso projeto a esse normativo, até porque há emprego de recursos federais na aquisição dessa tecnologia. A câmera corporal confere dois aspectos muito importantes para a atividade policial militar. O primeiro é a segurança jurídica do policial militar. O segundo é a transparência. Quando falamos em serviço público, a transparência, sem dúvida, deve orientar todo e qualquer trabalho.
Ao longo do tempo, houve resistência das forças de segurança quanto ao uso desse equipamento. Isso já foi superado?
Acreditamos que tudo aquilo que é novo naturalmente traz algum tipo de surpresa ou até certo desconforto. Mas o nosso policial militar é essencialmente comprometido com a questão dos direitos humanos. É uma polícia que, além de proteger, também promove direitos humanos. É uma polícia cidadã. Nesse aspecto, isso não nos traz preocupação. Muito pelo contrário. A câmera corporal servirá, por exemplo, para inibir situações de desacato, de pessoas que, por vezes, querem desafiar a ação policial de maneira indevida. Como mencionei, ela traz segurança jurídica para o policial militar e confere transparência às nossas ações.
Esse processo, que estava no Tribunal de Contas, já foi liberado?
O processo retornou para a corporação e a licitação já foi iniciada. Estamos na fase de testes e acreditamos que, no segundo semestre, teremos cerca de duas mil câmeras corporais em uso na corporação. Outro projeto que vamos iniciar, reforçando essa ideia, é o de câmeras embarcadas em viaturas. Imagine cerca de 500 viaturas, número exemplificativo, com essas câmeras. Estaríamos falando de 500 câmeras móveis na cidade, capazes de fazer a leitura de placas de veículos. Se uma viatura, em patrulhamento, passa por um veículo produto de furto ou roubo, o policial militar dificilmente conseguiria identificar isso a olho nu. A câmera embarcada fornece essa informação. Podemos pensar a viatura como o escritório do policial que atua na rua. Essa tecnologia permite isso. Já temos recordes de veículos recuperados pelo uso de tecnologia e inteligência aplicada à atividade policial. Em outras palavras, isso confere um trabalho mais assertivo da Polícia Militar. Por consequência, isso aumenta a segurança do policial e também da sociedade.
Há mais algum projeto em andamento?
A gente também pretende reforçar, por exemplo, um projeto existente na corporação que não possui relação direta com a tecnologia, que é a Rede Vizinhos Protegidos. É um projeto que, para a gente, tem um valor muito significativo. É a relação direta entre polícia e sociedade. É a máxima do artigo 144 da Constituição, que diz que segurança pública é dever do Estado e responsabilidade de todos. Quando nós trazemos a comunidade para o projeto Rede Vizinhos Protegidos, surge um sentimento de pertencimento àquela localidade. Então, o problema de segurança pública, que outrora era da Polícia Militar, com a Rede Vizinhos Protegidos, passa a ser nosso, da polícia e da comunidade. Polícia e sociedade trabalhando com essa sinergia, de maneira integrada, o cidadão dizendo onde está a necessidade, onde podemos melhorar nosso trabalho. Assim, surgem demandas de luz queimada, lixo acumulado, que também é uma questão de segurança pública. Ainda que, inicialmente, possa não parecer. Essa integração permite ao comandante facilitar o diálogo com outros órgãos públicos, dentro da lógica de integralidade da segurança pública.
Como trazer para a população o sentimento de segurança?
Nossa lei prevê um efetivo de 18.673 policiais militares. Por razões diversas, desde opção política até limitação orçamentária, durante um certo período ficamos sem a possibilidade de realizar concursos. Por consequência, também sem o ingresso regular de policiais militares. No atual governo, houve essa sensibilidade, o entendimento e a percepção de que a segurança pública deve ser tratada como tema prioritário. Assim, conseguimos promover o ingresso de novos policiais militares. Temos, neste momento, um curso de formação em andamento com 1.234 policiais militares. Há ainda 814 a serem convocados, que correspondem ao remanescente do último concurso. Já estamos organizando um novo concurso para 2027. Neste ano, formaremos 1.274 policiais militares. Também iniciaremos uma nova turma com 814 policiais, se não no final deste ano, no mais tardar no início do próximo, pois há uma questão legal a ser ajustada. Na sequência, já fazer o concurso para garantir alguma regularidade no ingresso. Nessa linha, entendemos que, embora o efetivo ainda não seja o ideal, esse ingresso contínuo nos permite buscar o que a lei prevê. Independentemente disso, observamos que, apesar da redução do efetivo, agora em processo de recomposição, a população segue crescendo. Ainda assim, os índices de segurança da capital estão entre os melhores do país. Somos a segunda capital mais segura. Mesmo com um efetivo aquém do previsto em lei, conseguimos promover segurança pública em nível de excelência nacional. Isso se deve, basicamente, ao uso de tecnologia, ao emprego de inteligência, ao planejamento das ações e, sem dúvida, à integração com outras forças de segurança e com diferentes órgãos do Estado.
Há pretensão de ser mantido o serviço voluntário remunerado?
O serviço voluntário gratificado tem previsão em Lei e faz parte da estratégia da corporação para manutenção da nossa capacidade operacional. Em 2025, para exemplificar, tivemos mais de 17 mil eventos em Brasília. Esse serviço nos auxilia muito a atender essa demanda, que envolve manifestações, shows, jogos de futebol, entre tantos outros eventos que ocorrem na capital da República, símbolo da democracia do nosso país. Sem dúvida, é uma ferramenta necessária e que continuaremos utilizando.
Há ações para a saúde mental dos policiais?
A governadora Celina Leão determinou que o nosso cuidado e prioridade devem ser com os nossos policiais. A segurança pública é feita por pessoas. Portanto, se queremos uma segurança pública de qualidade e excelência, é fundamental olhar para quem a realiza. Costumo dizer que investir no bem-estar do policial militar, em última análise, é investir na própria sociedade. Investir na qualidade de vida do policial significa ter um profissional motivado, com as melhores condições, tanto em equipamentos quanto, especialmente, no fator mental, para prestar um serviço de excelência à população, que é exatamente o que ela espera e merece.
Quais são os seus planos ao longo da gestão?
São três eixos: o policial militar, a Polícia Militar e a sociedade, e tudo o que deriva disso. Em relação ao policial militar, falamos de valorização profissional, manutenção e ampliação do atendimento médico-hospitalar e fortalecimento da assistência à saúde mental. Inauguramos recentemente o Centro de Assistência Psicológica e Social (CAPES), com capacidade média de 70 mil atendimentos por ano. No que diz respeito à Polícia Militar, tratamos do fortalecimento institucional. Um exemplo é a manutenção do ingresso regular de policiais militares, o que mantém a instituição forte e ativa. Em relação à sociedade, falamos em respeito e promoção dos direitos humanos. Isso envolve programas como o Policiamento de Prevenção Orientada à Violência Doméstica e Familiar (Provid), o Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência (Proerd), escolinhas de futebol, artes marciais, entre outros. Aproximadamente 500 mil pessoas são atendidas anualmente por esses programas. Fortalecê-los é também fortalecer a relação com a comunidade.
Como está sendo o enfrentamento ao crime organizado?
Um dos investimentos está nas Câmaras Técnicas de Inteligência e Combate ao Crime Organizado, de alcance nacional. Todas as inteligências das polícias militares dialogam nesse espaço. Aqui no DF, a Polícia Militar tem como questão de honra não permitir áreas inacessíveis. Não há, em Brasília, locais onde a viatura da Polícia Militar não possa transitar. Negar território ao crime organizado é uma missão da corporação. Nessa linha, é necessário não apenas manter a presença ostensiva e rotineira nas ruas, mas também investir em capacidade operacional e de resposta. Estamos adquirindo veículos blindados para equipar nossas tropas especializadas, garantindo condições técnicas para atuação em situações extremas, com capacidade adequada de resposta.
Essas viaturas já foram adquiridas ou ainda estão em fase de compra?
A licitação foi realizada e os veículos estão em fase de fabricação. São veículos canadenses. A equipe de contratação já realizou uma visita à fábrica, no Canadá, para acompanhar o processo de produção. Acreditamos que, até o final do ano, esses veículos estarão disponíveis para uso aqui em Brasília.
Qual é o investimento nesse eixo específico de combate ao crime organizado?
São diversos investimentos. Os veículos blindados são apenas um exemplo. Também estamos capacitando e especializando policiais militares que atuam nas unidades das regiões administrativas do DF. Esses profissionais passam por cursos, como o de atirador designado, entre outras formações. Além disso, estamos adquirindo drones para monitoramento de áreas críticas ou que eventualmente se tornem críticas. Esses equipamentos proporcionam maior consciência situacional.
Há uma preocupação crescente com a tentativa de atuação do crime organizado na capital?
Eu diria que há uma vigilância permanente. E o sucesso dessa vigilância depende, necessariamente, da integração entre todas as forças de segurança que atuam na capital da República. Refiro-me tanto às forças locais quanto às federais, considerando que Brasília abriga a sede dos três Poderes, além das estruturas administrativas da própria capital.
O senhor terá grandes desafios neste ano, como Copa do Mundo e eleições. Como está a preparação?
A população de Brasília pode ficar tranquila. A PMDF está plenamente preparada, reunindo todas as condições técnicas e logísticas para atuar nos mais diversos eventos. Vamos garantir a segurança necessária e adequada para todos.
Diante dos episódios das últimas eleições, como a tentativa de golpe de Estado, o senhor garante que situações como aquelas não voltarão a ocorrer no DF?
A população pode ficar tranquila. O processo eleitoral e a posse ocorrerão dentro do que a lei determina e do que a Constituição prevê. A Polícia Militar reúne todas as condições para garantir isso. Sobre o 8 de janeiro, o que posso dizer é que lamentamos todos os aspectos daquele episódio, mas entendemos que a nossa corporação, em nenhuma medida, concorreu para aquele acontecimento.
Qual mensagem o senhor deixa para a tropa?
A você, policial militar que nos acompanha, quero dizer para cada um de vocês que assumo o comando da nossa Polícia Militar com humildade e um grande sentimento de responsabilidade. É um encargo que encaro como uma missão e também como um grande desafio. Cada um dos senhores, como principal ativo da nossa corporação, serão constantemente o principal vetor da gestão do nosso comando.
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